A isquemia mesentérica é uma condição vascular grave que ocorre quando o suprimento de sangue para o intestino é interrompido ou significativamente reduzido. Embora seja pouco conhecida pelo público geral, representa uma emergência médica com alta mortalidade quando não diagnosticada e tratada rapidamente. Conhecer seus sinais de alerta pode fazer a diferença entre a vida e a morte.
O Que É a Isquemia Mesentérica?
A isquemia mesentérica é definida como a insuficiência de irrigação sanguínea no território das artérias mesentéricas — vasos responsáveis por nutrir o intestino delgado e parte do intestino grosso. Quando o fluxo sanguíneo é comprometido, as células intestinais começam a sofrer isquemia (falta de oxigênio) e, se não tratadas, evoluem para necrose (morte tecidual), o que pode ser fatal.
Tipos de Isquemia Mesentérica
A isquemia mesentérica é classificada em quatro tipos principais, de acordo com sua causa:
1. Oclusão Arterial Aguda
É a forma mais comum e grave. Ocorre quando um coágulo ou êmbolo (fragmento de coágulo) obstrui subitamente a artéria mesentérica superior. Está frequentemente associada a doenças cardíacas como a fibrilação atrial, que favorece a formação de trombos no coração.
2. Trombose da Artéria Mesentérica
Ocorre sobre uma placa de aterosclerose previamente existente. É mais gradual que a oclusão embólica e pode cursar com sintomas crônicos antes do evento agudo.
3. Isquemia Mesentérica Não Oclusiva
Ocorre sem obstrução mecânica dos vasos, causada por baixo débito cardíaco, sepse grave ou uso de determinados medicamentos vasoconstritores. É comum em pacientes internados em UTI.
4. Trombose Venosa Mesentérica
Causada por trombose nas veias mesentéricas. Está associada a distúrbios de coagulação, doenças inflamatórias intestinais e estados de hipercoagulabilidade.
Principais Sintomas
O principal sintoma da isquemia mesentérica aguda é a dor abdominal intensa e súbita, desproporcional ao exame físico — ou seja, o paciente tem dor muito intensa mas o abdômen parece relativamente normal à palpação. Outros sintomas incluem:
- Náuseas e vômitos;
- Diarreia, às vezes com sangue;
- Distensão abdominal;
- Febre;
- Sinais de choque (queda de pressão, taquicardia) nos casos avançados.
Na isquemia mesentérica crônica (também chamada de angina intestinal), os sintomas são mais sutis: dor abdominal após as refeições, perda de peso involuntária e medo de comer.
Fatores de Risco
Os principais fatores de risco para a isquemia mesentérica incluem:
- Doenças cardiovasculares, especialmente fibrilação atrial e insuficiência cardíaca;
- Aterosclerose avançada das artérias mesentéricas;
- Idade avançada (mais comum acima dos 60 anos);
- Tabagismo;
- Diabetes mellitus;
- Hipertensão arterial;
- Estados de hipercoagulabilidade (trombofilia).
Como é Feito o Diagnóstico?
O diagnóstico da isquemia mesentérica exige alto índice de suspeição clínica. Os principais exames utilizados são:
- Angiotomografia (angioTC) do abdômen: é o exame de escolha, permitindo visualizar as artérias mesentéricas e identificar obstruções. Tem alta sensibilidade e especificidade;
- Doppler das artérias mesentéricas: útil na isquemia crônica, mas com limitações na fase aguda;
- Arteriografia: considerada o padrão ouro diagnóstico e permite tratamento endovascular simultâneo;
- Exames laboratoriais: leucocitose, elevação de lactato e outros marcadores de sofrimento tecidual.
Tratamento da Isquemia Mesentérica
O tratamento depende do tipo e da gravidade da isquemia. As principais abordagens são:
Tratamento Endovascular
Na isquemia aguda por oclusão arterial, a embolectomia por cateter ou a trombólise intra-arterial podem ser realizadas por via percutânea, com resultados excelentes quando realizadas precocemente. A angioplastia com stent também é uma opção no tratamento da isquemia crônica.
Tratamento Cirúrgico
Quando há necrose intestinal ou falha do tratamento endovascular, a cirurgia aberta é necessária. Pode envolver revascularização da artéria mesentérica e ressecção do segmento intestinal comprometido.
Anticoagulação
O uso de anticoagulantes é fundamental no tratamento e na prevenção de novos eventos, especialmente nos casos de trombose venosa mesentérica e na fibrilação atrial.
Isquemia Mesentérica Crônica: a Angina Intestinal
A forma crônica da doença, também conhecida como angina intestinal, é causada por estenose progressiva das artérias mesentéricas — geralmente por aterosclerose. Os pacientes apresentam dor após comer (que os faz reduzir a ingestão de alimentos) e emagrecimento progressivo. O tratamento pode ser feito por revascularização cirúrgica ou tratamento endovascular, com boas taxas de sucesso.
Quando Buscar Ajuda Médica?
Qualquer dor abdominal intensa e súbita deve ser considerada uma emergência médica. Em pacientes com fatores de risco para doenças vasculares — como idosos, cardíacos e portadores de aterosclerose —, a suspeita de isquemia mesentérica deve ser sempre levantada.
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